segunda-feira, 6 de junho de 2016

* Viagens e lendas - Gauchito Gil - o Santo Profano

          O grande barato de nossas viagens não estão somente nos lugares que conhecemos, nos pratos típicos que saboreamos, mas acima de tudo se aprofundar nas culturas regionais. Em nossa última viagem para Argentina, após pernoitar na cidade de Corrientes aconteceu um imprevisto, pegamos uma rota no sentido contrário e fomos parar na cidade de Mercedes, na província de Corrientes mesmo, uma cidade com pouco mais de 35.000 habitantes, ficamos curiosos pelo fato de uma cidade pequena possuir um hotel a cada esquina. Descobrimos que sem querer fomos para na cidade berço de Gauchito Gil, ali, no dia 8 de janeiro se celebra uma grande procissão a cavalo, em sua homenagem, são cerca de 500 ginetes com suas melhores pilchas.




          Em Mercedes encontra-se o santuário “oficial” do Gauchito Gil, embora ele esteja por Argentina, ele é considerado o padroeiro dos motoristas e existem inúmeros santuários por todas a rotas argentinas.




          Gauchito Gil é um lendário personagem da cultura popular argentina. Seu nome completo era Antonio Mamerto Gil Núñez, e supostamente nasceu na área de Pagamento Ubre, hoje Mercedes, província de Corrientes, possivelmente na década de 1840, e morreu a 8 de janeiro de 1878. É considerado o mais proeminente santo gaúcho na Argentina, ele não está incluído na liturgia católica.

Existem três versões sobre a vida de Gauchito:

Primeira versão  (Principal)

          Antonio Gil teria sido um trabalhador gaúcho rural, adorador de São Morte, que teve um romance com uma viúva rica. O relacionamento o fez ganhar a inimizade dos irmãos da viúva e quando o chefe da polícia (que também era apaixonado pela viúva) descobriu sobre seu relacionamento, acusou-o de roubo e tentou matá-lo.

          Devido o perigo, Gil deixou a área e se alistou para a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) contra o Paraguai. Contudo, voltou para o exército para lutar na Guerra Civil argentina, teria sido recrutado pelo Partido Autonomista. Foi uma guerra de irmão contra irmão e Gauchito Gil estava cansado de lutar, por isso, decidiu pela deserção. Durante esse tempo, ele se tornou um bandido e adquiriu uma reputação como um Robin Hood por seus esforços para proteger e ajudar os necessitados.

          A deserção era um delito, Gauchito foi capturado e colocado de pé encostado a uma árvore, quando um policial estava indo para matá-lo, "Gauchito" Gil disse a ele: "Seu filho está muito doente. Se você orar e implorar-me para salvar o seu filho, eu prometo a você que ele vai viver. Se não, ele vai morrer..." Em seguida, o policial matou Gauchito Gil cortando sua garganta. Isso aconteceu no dia 08 de janeiro de 1878.

Quando os policiais voltaram para a sua aldeia, aquele que havia matado Gauchito Gil ficou sabendo que seu filho estava de fato muito doente. Muito assustado, o policial rezou a Gauchito Gil para seu filho que acabou ficando bom. Diz a lenda que Gauchito Gil havia curado o filho de seu assassino. Muito agradecido, o policial deu ao corpo de Gil um enterro apropriado, e construiu um santuário para Gauchito. Além disso, ele espalhou a todos sobre o milagre.


Segunda versão

          Outra versão relata que Gil era um abigeato que se uniu aos pobres. Recrutado para combater na Guerra da Tríplice Aliança, desertou e foi perseguido. Quando o capturaram, um comissário estava para lhe atirar, quando Gil lhe disse: "Não me mates. Vai chegar a prova de minha inocência." O comissário então respondeu: "Não irá te salvar." Foi então que Gauchito Gil disse: "Quando chegar a carta que prova minha inocência, receberá a notícia que seu filho está morrendo por causa de uma grave doença. 

          Reze para mim que ele se salvará, porque hoje está derramando o sangue de um inocente." Nessa época se acredita que invocar o sangue de um inocente era milagroso. Ao chegar em casa, o comissário encontrou seu filho doente, rezou por Gauchito Gil e seu filho se curou. Ele então retornou ao local onde estava o corpo e lhe concedeu um enterro.


Terceira versão

          Gauchito Gil dirigia um grupo autônomo que ia de povoado em povoado saqueando, roubando os ricos para dar aos pobres e matando todo liberal que cruzasse seu caminho. Era devoto de São Morte e dizia que era impossível ser assassinado à bala. Foi capturado por um grupo de homens do Partido Liberal e degolado perto de Mercedes Corrientes.









quinta-feira, 2 de junho de 2016

* Interoceânica Sur - Peru


          Final de 2014, em viagem realizada para Machu Picchu no Peru, como nome de Expedição 5 Fronteiras, em nosso roteiro a Argentina, Chile, Bolivia, Peru e o retorno pelo norte do Brasil, entrando por Assis Brasil no Acre, fomos surpreendidos pelas belezas da Panamericana Sur, uma estrada cheia de belezas tanto na região dos andes como na amazônica. Não chegamos a pegar a variação climática que ocorre nesses belos 694 km, nos Andes, onde a estrada chega a 4,7 mil metros acima do nível do mar e com temperaturas que variam de 20 graus positivos a 20 graus negativos, na selva amazônica, a altitude cai para 300 metros e o calor chega facilmente aos 40 graus. 

          A Interoceânica Sur foi idealizada em 2001 num acordo firmado entre 12 países da América do Sul, a Iirsa Sul, são 2,6 mil quilômetros ligando a fronteira do Brasil (município Assis Brasil, no Acre) com o Peru (porto de San Juan de Marcona), próximo a Lima, no Pacífico. Antes, para percorrer os 500 quilômetros que separam Cuzco e Puerto Maldonado eram necessários três dias, com a rodovia o tempo de viagem caiu para cerca de 11 horas, sob condições climáticas favoráveis.
 
          Com o inicio da construção foi em 2006, a Iirsa permitiu o reconhecimento do potencial das regiões como Cuyuni e Marcapata e impulsionou o desenvolvimento do turismo sustentável a partir de programas de econegócios, turismo responsável, conservação da biodiversidade e fortalecimento da governança local. Entre os projetos, estava a ativação de acampamentos e rotas de trekking no circuito de Ausangatey e de arte nativa e o desenvolvimento turístico para a consolidação da zona de amortecimento da Reserva Nacional de Tambopata. Para isso, foi criada a Interoceanica Sur – iSur. 

          A obra foi concluída em 2011 com a inauguração da ponte Presidente Guillermo Billinghurst – Ponte Continental, localizada sobre o rio Madre de Dios, unindo a cidade de Porto Maldonado com a aldeia de El Triunfo, na região de Madre de Dios, no sul do Peru. 

          Fizemos uma loucura no trajeto Cusco / Assis Brasil, nesse trecho foram 694 km percorridos com algumas emoções, a estimativa dada pelo Google Earth era de 10 horas de viagem, saímos logo cedo de Cusco, por volta de 7:30 h, o dia estava chuvoso, seguimos sentido a Puerto Maldonado, quando estávamos no inicio da subida da Cordilheira tivemos a sensação de que um carro com três homens nos perseguia, deixamos este veiculo nos ultrapassar e andamos um pouco mais lento para ver se o veiculo se afastava.

          Um pouco mais adiante a estrada estava bloqueada para reforma, com isso alcançamos o tal veiculo e passamos a frente dos demais que aguardavam na fila - assim que a estrada foi liberada a gente acelerou as motos e pernas para quem te quero. Subimos a Cordilheira até chegar próximo de algumas montanhas que estavam cobertas de neve. O céu estava encoberto por um nevoeiro que impedia a entrada da luz do sol, tornando o dia mais acinzentado.

          A descida da Cordilheira é feita de forma muito lenta, por isso previsão do Google numa viagem de 694 km em 10 horas, muitas curvas são realizadas a 30 km/h, chego ao cumulo de dizer que a gente quase enxerga a placa da moto nessas curvas, são caracoles e mais caracoles. Mas o visual compensa.

 
        Quando já estávamos na metade do percurso ultrapassamos um caminhão da Coca-Cola, um pouco depois havia obras na pista e a operária da empresa concessionária da estrada mandou a gente seguir por uma estrada de terra, descemos um bom trecho através de uma estrada próxima do abismo. Estávamos com as motos muito carregadas, então descemos com o máximo de cuidado, deu raiva a hora que dois rapazes passaram numa 125 cc deixando poeira para trás, puderá, o conjunto moto x motociclista x garupa e bagagem estava próximo dos 500 kg. 

          Bom, foi uma experiência bacana, porém poderia ter sido evitada, afinal o caminhão da Coca-Cola avançou pela estrada principal, lá longe a gente enxergava o caminhão descendo a cordilheira, um pouco depois de acessarmos a Panamericana alcançamos e ultrapassamos o caminhão novamente.

          Conforme íamos descendo a temperatura ia subindo, já próximo do final da descida da cordilheira fomos surpreendidos com a estrada bloqueada, as máquinas já estavam operando no local, um pedaço da montanha desceu abaixo, ficamos pouco mais de uma hora aguardando a liberação desce trecho. 

          A estrada peruana é muito parecida com algumas estradas no interior Paraná, só que com uma região de florestas, afinal, estávamos num trecho na Floresta Amazônica. Nesse dia não conseguimos parar para almoçar, paramos então num vilarejo e comemos bolacha, barra de cereal e dividimos uma coca cola que compramos num mercadinho a beira de estrada com o pouco de dinheiro peruano que tínhamos no bolso.

          Um pouco antes de Puerto Maldonado tive problemas de consumo em minha moto, faltou gasolina a 8 quilômetros da cidade, eu carregava dois galões de cinco litros comigo, pedi ao Alexandre para que fosse buscar e então chegamos em Puerto Maldonado por volta das 17:30 horas. Ainda faltavam 190 km até chegar até Assis Brasil, como estávamos em horário de verão, decidimos seguir viagem para chegar no Brasil naquele mesmo dia.

          A estrada não estava muito boa e por conta disso a viagem não rendeu como gostaríamos, a noite chegou e com ela o cansaço, eu seguia a frente e percebi pelo retrovisor que a luz da moto de Oziel ficava distante a cada instante, parei a moto um pouco e aguardei, de repente Oziel da a volta e começa a ir no sentido contrario, de imediato senti a falta de Alexandre e então fiz a volta e fui junto de Oziel. Andamos um pouco e vimos uma lanterna que parecia vaga-lume voando de um lado para o outro. Alexandre tinha se perdido e saído da estrada, por sorte não havia acontecido nada com ele e nem com a moto.

          Bom, seguimos nossa viagem e pouco depois já estávamos na aduana peruana, estava fechada mas o agente permitiu a nossa passagem, nos orientou a retornar na manhã seguinte para dar baixa em nosso passaporte,  Assis Brasil fica a menos de 5 km dali e chegamos por volta das 20 horas. Nossa maior preocupação nessa região era com o excesso de mosquitos, a pousada era bem protegida com telas nas janelas e nas portas, mas ainda assim havia o medo da febre amarela.

          No dia seguinte retornamos para a aduana peruana afim de darmos baixa em nosso passaporte, e assim acabou nossa aventura no Peru.